quinta-feira, setembro 01, 2005

Rio

Repensando um pequeno texto que fala da suspeita de uma menina brasileira com o braço engessado revistada no aeroporto dos EUA.
Que a sociedade americana está mais neurótica do que nunca com essa estória de terrorismo, isso ninguém nega.
Sei que lá na terra do Tio San, se você quiser dar uma voltinha na rua à noite, uma simples caminhada, com certeza você pode. Seu direito de ir i vir está assegurado. Mas, não tarda e aparece uma viatura policial lhe aborrecendo, pergunta aonde vai, o que pretende, por que está em frete a casa dos outros.
Por certo algum vizinho bisbilhoteiro, olhou pela janela e viu um sujeito suspeito e chamou a polícia.
Pois é, lá a polícia é eficiente, menos corrupta, os vizinhos tomam conta da sua vida. Pelo menos é isso que nos vendem.

Visualizo uma senhora olhando pela janela de sua humilde casa na favela e vê seu vizinho agindo de maneira suspeita (com uma metralhadora na mão), resolve ligar para o polícia. O que vai acontecer? Qualquer caso semelhante é mera coincidência.

Morava em Vila Isabel e estudava na Tijuca. Perto da minha escola tinha uma rua que terminava na subida da Floresta da Tijuca. Um lugar totalmente arborizado, fresquinho, e no final desta rua tem uma praça cheia de escultura de cimento em forma de bichos. Do lado desta praça tinha um rio que descia da Floresta, neste ponto a água ainda era limpa e cristalina (tudo bem que desemboca no Rio Maracanã, virando aquele esgotão), mas lá encima o rio ainda não era contaminado.
Costumava sair da escola e antes de ir para casa passávamos nesta rua para conversar, atitude de qualquer adolescente normal.
Apesar da rua não ser um condomínio fechado, os moradores colocaram uma guarita com cancela na entrada da rua e contrataram seguranças. Não tiro a razão deles, mesmo sendo uma área nobre da Tijuca, o bairro já sofria as conseqüências da violência do morros próximos.
Num dia deste de verão, um calor absurdo, saí mais cedo da aula e fui com um amigo na pracinha. Lá tive a brilhante idéia de tirar o tênis e sentar próximo ao rio e colocar os pés na água. Que delícia a água estava geladinha, o local era super agradável.
Não demorou muito apareceu um homem se dizendo segurança da rua e pediu para que saíssemos de lá, dizendo que era um local perigoso e que num dia anterior tinha prendido garotos com drogas. Não estávamos num local afastado, do banco da praça dava para ver perfeitamente o rio. Não usava uniforme, pois já estava no primeiro ano do segundo grau, mas mostrei a ele minha carteirinha escolar, uma escola conceituada do bairro, mesmo assim ele foi irredutível e disse que era proibido ficar ali. Não entendi, a praça é pública, o rio é público, mas obedeci. Só falei que iria calcar o tênis. Antes de terminar de calçar o sapato o homem voltou, desta vez transtornado, veio com uma arma na mão berrando: “já mandei sair”, e apontou a pistola para minha cabeça, só escutei o clak-clak. Fiquei apavorada, devia ter 16 anos na época. Nem amarrei o tênis e fui descendo sem olhar para trás. Meu amigo ficou indignado e começou a discutir me defendendo. Tolinho. Chegando perto da guarita, o homem pegou um pedaço de pau e começou a bater no meu amigo. Como tinha ficado quieta, desde do início sem a menor reação, o louco nada fez comigo. De longe via aquela cena de horror e os moradores iam aparecendo e não se comoviam. O coitado apanhou igual um bandido. Quando acabou a seção violência fomos direto para casa dele, que era mais próxima e ligamos para nossos pais. A mãe dele era advogada e ainda sondou quem era aquele sujeito. Descobriu que era um policial que fazia bicos como segurança clandestino. Resultado, a coroa disse que nada podia ser feito. Mexer com policial era arriscado e nunca se sabe a represaria que poderíamos sofrer. A estória acabou. Nada aconteceu, só me restou o trauma. Impunidade. Durante muito tempo achava que todo policial era como aquele louco desvairado, não chegava nem perto.
A vida é mesmo engraçada. Vim a estudar direito, tive aulas com delegados super competentes, colegas de turma policiais, igualmente pessoas íntegras, esforçadas, buscado algo de melhor para suas vidas. Fazendo-me enxergar que nem todos são iguais. Existem policiais do bem e para o bem.
Só que a televisão a cada dia nos mostra aquela realidade cruel. Escutas telefônicas envolvendo policiais corruptos negociando com traficantes. Cúmplices de crimes ou até mesmos autores.
Meu consolo é que esses crimes estão sendo desvendados e os culpados punidos. Mas ainda tem muito que ser investigar. Estamos longe de uma solução.
O que não pode é continuarmos a viver nesta cidade tão maravilhosa com essa violência devastadora. A polícia é necessária, precisamos dela. Manter a ordem e a tão sonhada paz social.

7 Comentários:

Blogger Alice disse...

Infelizmente paola ,não é só na Polícia , em toda profissão tem .
E eu continuo acreditando que o bem vai vencer sempre .
Beijo

10:03 PM  
Blogger Marcelo Orlando disse...

Sei que isso existe... mas ainda assim fiquei de queixo caído... Não sei, mas eu tenho quase que certeza que não ficaria quieto... certeza quase absoluta que sairia dali direto pra Delegacia... Se fizessem corpo mole, iria direto pra Corregedoria... Não me agrida que eu viro um animal! Coitado do seu amigo...

12:01 AM  
Blogger Marcelo Orlando disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

12:02 AM  
Blogger Elaine disse...

Os policiais estão sendo punidos sim Paola, mas ainda falta transparência nessas punições.
Quanto ao texto sou um pouco diferente de você, tive a sorte de conhecer os policiais do bem primeiro para depois conhecer os "caras maus". Por isso, sempre tive o cuidado de não generalizar a polícia de um modo geral. Não vou te dizer que confio em policiais, mas a princípio dou o crédito merecido e vou observando as atitudes.
Só para constar em dezembro de 2003 uma semana antes do natal fui assaltada dentro de um ônibus na av. Brasil e perdi tudo. Minha bolsa com tudo dentro. Permaneci dentro do onibus até cidade. Lá encontrei com meu primo, peguei dinheiro emprestado para voltar e fazer o BO na delagacia(30ª) do meu bairro, que informou que não poderia ser feito ali. No dia seguinte fui na delegacia(40ª) indicada por eles e lá o imbecil disse que era em outra delegacia. Voltei para casa, liguei para a outra tal delegacia (39ª) e fui informada que não era lá também e sim na (40ª) PQP, não pensei duas vezes. Enviei um e-mail para o "fale com o chefe" da polícia civil para saber quem iria resolver o meu problema? Informei que iria voltar na 40ª no domingo e se não conseguisse iria mandar novo e-mail.
Cheguei na 40ª fui atendida pelo inspetor Gabriel que me atendeu rápido e ainda atendeu outra pessoa ao mesmo tempo. No final eu comentei com ele do meu suplício para fazer o BO. E ele me respondeu: Basta ter boa vontade.
Enviei um e-mail para "o chefe" de novo informando que havia conseguido fazer o BO e obviamente elogiei a atenção do Inspetor Gabriel.
Tive a resposta dos dois e-mails.
1º: No e-mail, alguém sei lá quem, informava que eu poderia ter feito o BO em qualquer delegacia.
2º Falavam que estavam contentes por eu ter conseguido fazer o BO e encaminharam o meu e-mail para a 30ª para saber porquê eles não me atenderam lá.
E é por essas e outras que tenho cuidado de generalizar as coisas. haja vista que o impetor gabriel que estava trabalhando num domingo ensolarado me tratou muito bem e os outros se lixaram.
Enfim, que bom que você encontrou os homens do bem também.
Beijins,
Elaine

12:42 AM  
Blogger Ozéas disse...

Entendo sua indignação quanto a questão da segurança.
Como você estou aflito e assustado com o dia seguinte, não só por mim mas por todos que amo. Me arrepio em pensar que sociedade é essa que vamos deixar para nossos filhos e que viveremos(?) na nossa idade mais avançada.
Só reparo um detalhe, é quando vc fala na segurança lá na terra do Bush.
Você fala da segurança e observa "o que nos é vendido", realmente, assim nos é se nos parece.
A política de segurança americana caminha na teoria da "lei e ordem", confesso a você que não é o Estado que sonho para mim, sou um libertário e não acredito nessa doutrina autoritária e violenta, mas isso é papo para muitas horas e muitas doses de um bom Red.
Quanto a polícia americana ser menos corrupta que a nossa, recomendo o filme "Sérpico", é uma estória real que a indústria cinematográfica resolveu filmar.

4:42 PM  
Anonymous Anônimo disse...

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4:42 AM  
Anonymous Anônimo disse...

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2:40 PM  

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